sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O leitor: direitos e (talvez) deveres

De direitos se faz a história do nosso tempo. Não há quem não tenha direitos e muito menos quem não esteja seguramente consciente de que os tem e de que deles pode sempre usufruir. Os deveres é que. Mas aqui de livros se trata – de livros e de leitura. Direitos que a todos deveriam interessar, embora haja quem deles prescinda.
Havendo leitores, é necessário concluir que lhes assistem direitos. Assim o pensou Daniel Pennac, elencando uma lista de dez direitos que ao leitor dizem respeito (cf. Como um Romance, Ed. ASA, 1992, p. 155): o direito de não ler, o direito de saltar páginas, o direito de não acabar um livro, o direito de reler, o direito de ler não importa o quê, o direito de amar os “heróis” dos romances, o direito de ler não importa onde, o direito de saltar de livro em livro, o direito de ler em voz alta, o direito de não falar do que se leu. Se não tivermos em atenção o primeiro direito (que é óbvio, mas faz do leitor um não-leitor), todos os outros configuram uma salutar liberdade do leitor perante o livro – ler sem liberdade é, de facto, algo que só pode reverter em desfavor da leitura; ler por obrigação e de forma necessariamente “certinha” é o caminho seguro para o leitor (sobretudo o leitor jovem e iniciante) se afastar da leitura. Pelo contrário, ler de acordo com o seu “estilo” próprio, fazer do livro um amigo com quem se está à vontade, é via para um desenvolvimento do prazer de ler. Os direitos do leitor não se esgotam – como diz, aliás, Pennac – nos propostos. De facto, apetece acrescentar alguns: o direito de ler o livro todo, o direito de acabar o livro, o direito de falar do que se leu, o direito de sonhar com o que se leu, o direito de aprender com o que se leu, enfim, seria a lista interminável.
E quanto a deveres, essa palavra que tão arredada anda do nosso vocabulário? Quando se trata, em particular, de uma actividade que deve, antes de tudo, proporcionar prazer (pois, se o não proporcionar, vã será a leitura), falar de deveres torna-se, provavelmente, pouco oportuno. Com efeito, dever opõe-se, as mais das vezes, a liberdade – e a liberdade tem de presidir ao ato de ler, a fim de que este seja profícuo. No entanto, ousamos aqui aventar alguns deveres do leitor. Em primeiro lugar, o respeito pelo livro – pelo objeto que é e que merece ser preservado, nem que seja por princípio ecológico. Não respeitar a integridade do livro é uma ação que revela, no mínimo, falta de civismo. Outro dever do leitor é não desvirtuar as palavras de quem escreveu – dever, como o primeiro, alicerçado no respeito. O terceiro dever será o de ser crítico relativamente ao que se lê, também manifestação de civismo.
Não querendo maçar o leitor com uma elencando de deveres que lhe poderiam ser desagradáveis, por aqui nos ficamos, com uma sugestão: leiam, usufruam dos seus direitos. E não esqueçam os seus deveres.
Paula de Sousa Lima

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Projeto de promoção da leitura nas escolas do 1.º ciclo do Faial

O projeto artístico de promoção do livro e da leitura “Abraços de Palavras", inserido nas atividades do Plano Regional de Leitura, e dinamizado por Rita Braga, volta às escolas do 1.º ciclo do Faial durante os meses de outubro e novembro com o ateliê “Os Vizinhos”, num total de 32 sessões. 

Com este ateliê pretende-se surpreender e maravilhar o público escolar com uma história indiscutivelmente emotiva, jogar com os seus pensamentos, desafiando a sua curiosidade e incentivá-lo a dialogar, a partilhar afetos e a descobrir o mundo.

No ateliê “Os Vizinhos” os alunos vão descobrir um livro com muitas histórias dentro, histórias simples e bem-humoradas, de encontros e desencontros, localizadas sempre em quintais. Histórias que retratam a vida de um grupo de vizinhos ao longo dos doze meses do ano. Histórias repletas de canteiros, de árvores de fruto, de hortas, de estendais e de outras coisas mais. Histórias onde habita um gato misterioso e destemido sempre à procura do dono e da sombra que mais lhe convém.

No ateliê “Os Vizinhos” os alunos vão escutar e observar com muita atenção, reparar em certos detalhes, jogar com as nossas ideias, colocar perguntas e procurar respostas, analisar comportamentos, explorar expressões faciais, conhecer os outros e eles mesmos, promover a consciência ecológica e incentivar o prazer da criação artística. Os alunos vão imaginar e construir, em grupo, histórias situadas em quintais e representadas através de maquetes. Histórias cujos cenários e personagens serão feitas através da arte de dobrar papel (Origami) e através de outros materiais. Histórias que celebram o poder da imaginação e que serão alvo de exposição nas escolas participantes.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Eu, consumidor omnívoro de livros

O escritor e professor Victor Rui Dores, membro da Comissão de Honra do Plano Regional de Leitura e com uma obra na lista de livros propostos - Crónicas Insulares -, justifica a sua paixão pelos livros na crónica que aqui se publica.

Eu, consumidor omnívoro de livros
O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.”  
Padre António Vieira 
           
Ler é aminha paixão e é a minha profissão. E é a minha forma de perseguir caminhos de felicidade e de sonho, eu que sou leitor compulsivo e completamente viciado em livros. E é por isso que não fumo – esta foi a minha mensagem para o Plano Regional de Leitura.
Um destes dias perguntava-me um aluno meu se estaríamos a assistir ao fim do livro. Respondi-lhe que não, acrescentando que um suporte de comunicação não substitui outro. E dei-lhe exemplos: a fotografia não acabou com a pintura; o cinema não acabou com o teatro; a televisão não acabou com a sétima arte. Nada irá destronar o livro – porque não é contra as tecnologias digitais que o livro deve esgrimir – ele terá que se impor como objeto sui generis, até agora insubstituível, não só na esfera de transmissão de conhecimentos, mas, sobretudo, na fruição estética, na preservação da identidade linguística e no aprofundamento do eu.
Quem lê mais escreve melhor. E não é com SMS que se aprofunda o eu…
Não, nada poderá substituir o prazer de manusear os livros, de os sublinhar, riscar, dobrar, amarrotar as suas páginas e nelas fazer anotações… É por isso que ler é, para mim, uma necessidade orgânica. Ou seja, a minha relação com os livros é física e intelectual. Gosto do cheiro do papel, do lustro ou do mate das capas, sobretudo gosto do cheiro da tinta… (Confesso: adoro snifar os livros, e, nesta matéria, o meu irmão José Elmiro é muito mais viciado do que eu). Depois há esse dado inapelável: podemos ler os livros sentados, deitados, de bruços ou de cócoras, prazeres que as novas tecnologias da informação e da comunicação manifestamente não nos dão…
Leio vertiginosamente. Aliás, só conheço dois leitores mais quilométricos do que eu – o  Onésimo Teotónio Almeida (na América) e o Manuel Jorge Lobão (na ilha Graciosa).
Para mim, a felicidade está em grande parte ligada aos livros que têm sido os meus amigos silenciosos, invisíveis e irresistíveis. Neles não paro de colher conhecimento, cultura, informação e descoberta, eu que pertenço a uma geração que não teve o amplo poder de escolha em matéria de leitura, de que hoje os mais novos beneficiam. Durante os meus verdes anos a produção de livros não era abundante nem particularmente atraente do ponto de vista gráfico. Era o tempo dos compêndios, das Selectas Literárias e dos manuais “aprovados oficialmente” e patrioticamente visados pela censura do Estado Novo…
Só comecei a gostar verdadeiramente de literatura quando me apercebi de que ela era inseparável da vida. Comecei a ler livros que me ensinaram a conhecer o mundo, mas mais importante do que isso, ensinaram-me a conhecer a mim próprio.
Alguns livros mudaram a minha vida: Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, e Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, para dar apenas dois exemplos. De resto Camões, Garrett, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, bem como Dickens, Stendhal, Dostoiewski, Flaubert, Balzac, Melville, Steinbeck, Poe, Faulkner, Hemingway, entre muitos outros, são os meus mestres de cabeceira e o pão de que me alimento no dia a dia…
Aliás o mundo, tal como o conhecemos, tem sido feito pelos livros. Da Bíblia, do Corão ao Capital e a Freud; da Ilíada e da Odisseia a Voltaire e a Victor Hugo, de Hegel a Proust e aos livros escolares, os homens (ainda) vivem de ideias transportadas por livros, que nem sempre leram, mas dos quais são filhos.
A propósito, e em tempo de aparente pujança editorial, convirá fazer aqui uma destrinça entre leitores e compradores de livros. O leitor lê efetivamente o livro que compra ou toma de empréstimo; o comprador de livros limita-se a colocá-los na estante (quase sempre para fins de ornamento) com a intenção de os vir a ler um dia…
Há que separar o trigo do joio, numa altura em que se confunde cultura com diversão, havendo, por conseguinte, uma completa submissão dos valores culturais aos valores do mercado. É que há por aí muita prostituição livresca encapotada em técnicas de marketing… Hoje o bom escritor parece não ser aquele em cujas obras se vislumbra qualidade literária e estética; nos tempos que correm o bom escritor é aquele que pertence ao jet set “literário” lisboeta, com especial predominância para os pivots televisivos…
Há que incutir, o mais cedo possível nos mais novos, o gosto pela leitura, a fruição estética das palavras e isso é uma tarefa que cabe a todos nós. Estimular a imaginação dos nossos filhos implica leituras, implica que lhes contemos histórias. Sei de muitos casais que, para não terem este trabalho, limitam-se a adormecer os seus descendentes através de filmes, impedindo, deste modo, que se estabeleça a respiração e a componente afetiva que deve existir na mensagem emissor-recetor.
Não há motores de busca, nem inovações tecnológicas, nem ciberespaços, nem recursos digitais capazes de substituir o livro. Este continuará a ser o que sempre foi: um apelo à nossa inteligência, à nossa sensibilidade, à nossa imaginação, ao nosso espírito crítico e ao nosso desejo de aventura.
Os iluministas internéticos jamais acabarão com a República das Letras.
Viva o livro!

                                                                                              Victor Rui Dores

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Plano Regional de Leitura

O Plano Regional de Leitura assume-se como um fator de desenvolvimento individual, de progresso coletivo e de requalificação da relação entre os indivíduos e destes com a sociedade. Posiciona-se positivamente em relação à prática social da leitura, no seu sentido mais pleno, encarando-a como um instrumento de cidadania. Para isso, o Plano Regional de Leitura elege como finalidades, não só o aumento dos níveis de literacia, de alfabetização funcional e de compreensão vertical da informação escrita, mas também o estímulo das práticas de leitura entre aqueles que, sabendo ler, não o fazem. 

O Plano Regional de Leitura pretende transformar-se num instrumento de referência em que se articulam compromissos, iniciativas e ações para a construção de uma sociedade leitora, progressivamente mais competente. O conceito de leitura que preside a este Plano não se resume à capacidade de descodificação e compreensão de textos escritos, mas aponta para a possibilidade de compreensão e utilização de uma tipologia variada de textos, que seja o suporte do conhecimento e da participação ativa na sociedade.

Estes princípios contextualizam e justificam um Plano Regional de Leitura que aposta igualmente na leitura e no desenvolvimento da literacia em contextos de educação formal, na aprendizagem intergeracional e no conceito de literacia da família, reconhecendo que há diferentes práticas de promoção da literacia, enraizadas em diferentes processos culturais, circunstâncias pessoais variadas e estruturas coletivas diversificadas.

O Plano Regional de Leitura constitui um instrumento autónomo que, embora baseado nos mesmos princípios subjacentes ao Plano Nacional de Leitura, reúne ações e estratégias de valorização da leitura e do livro especificamente adequadas às características e necessidades da população açoriana e do sistema educativo regional.

O Plano Regional de Leitura foi publicado em anexo à Resolução do Conselho do Governo n.º 82/2011 de 6 de junho de 2011.